Miriane Willers
não era sem freqüência
no relento missioneiro
eu via
naquele metro quadrado do estacionamento
a mulher indígena, remanescente guarani
mãos submissas, constrangedoras, suplicantes
trocado, pão, sustento
pedia para si
e sua prole – duas crianças descalças
sentadas no chão de cimento
oferece cestos de taquara-brava
chá de marcela para insônia e agitação
mandalas de penas, artesanato, dor
sem palavras
espera o olhar, o pedido, a troca
não sei nada da mulher guarani
suas lendas, danças, cultura
rituais sagrados
véu invisível cobre meus olhos
só a vejo pedinte
desprovida da ancestralidade
da promessa jesuíta e divina
rosto, cocares, existência descolorida
nudez de esperança, de verde, de rio
cercada da floresta de concreto
com bichos peluciados na máquina
sedenta de moedas
ela fica ali à caça
do pacote de comida
do naco de alegria
e o governo e a igreja e a assistência?
se pergunta o homem de bem
no entra e sai do mercado
casais apressados se vão
sacolas brancas, plástico e ostentação
carrinhos cheios de latas, caixas e coisas
alto teor de açúcar, sal, desumanidade
sentimentos descartáveis
há quem alcança o pacote de massa
imperecível, impessoal
expiação da culpa histórica
no vaivém de passantes
que não veem
a mulher indígena no estacionamento
número em extinção
dos sete povos de antigamente
vou para casa
nas mãos – vinho, frutas e flores
atravessados como flecha na garganta
a mulher indígena e sua prole
já não está.