Miriane Willers
O amor não domina; ele cultiva
Goethe
¬Foi o que aconteceu com nós duas. Ela estava aqui, quando cheguei para ocupar a casa – presente do meu pai. Jovem, vistosa, até um pouco estranha e baixinha. Não sabia eu quem ela era, nem conhecia nada dela, nem ninguém parecido. Mas, me cativou de imediato. Acompanhou a reforma da casa, a mudança. Foi conhecendo os novos moradores: meu marido e meu gato – Toni. Mais tarde, minha filha. No primeiro dezembro de convivência mútua, presenteou-me com pequenos frutos vermelhos, semelhante a morangos. Sumo branco, sabor adocicado, diferente... como os novos amores. Quis saber mais sobre ela e descobri que era originária da China e se chama Lichieira. E assim teve início nossa ligação.
A cada ano, venho me afeiçoando a esse ser, que estende ramos e mais ramos ao meu encontro, como abraços. Aprofunda suas raízes na terra e no meu coração e oferece lichias cada vez mais doces, como versos de amor. Nas tardes de verão, me envolve com seu frescor, enquanto descanso na rede apegada no seu tronco. Melhor climatizador não há! Resfria meu corpo e meu pensamento, enquanto descubro o céu entre seus olhos-folhagem que miram o longe. Acalma. Acolhe. A canção da brisa ao tocar suas folhas sussurra paz. Chamo-a de minha árvore! Todos da casa são conhecedores do meu apego à ela, o que a torna intocável, insubstituível, singular. Aparar minimamente seus galhos pode desencadear um conflito mundial nos 370 m² do meu território, no centro da cidade.
Penso que nosso sentimento é recíproco, sensível, nascido da alma humano-natureza. Somos parte uma da outra. Minha sobrevivência depende dela. A sobrevivência da minha espécie depende dela. E vice-versa. Negar essa relação é dor, catástrofe, enchente, tragédia humano-ambiental. Sem as árvores, seres que nos completam, nossa existência está em flagrante risco. A ameaça não é mais à continuidade da vida dos nossos netos e bisnetos. É nossa. É agora. Não admitir essa relação – que precisa ser amorosa, respeitosa e responsável – é desacreditar da Ciência. E desprezar a Ciência é desamar a humanidade.
Contra fatos e números não há argumentos. Árvores são essenciais para evitar o aquecimento global. Evitar que a chuva – que tinha cheiro de vida, aconchego, pipoca, livro bom, canção de ninar – seja preocupação, despedidas, susto, medo, sofrimento. Da mãe natureza têm sido arrancadas, sem dó, milhões de árvores-filha todo ano. E o plantio é pouco e para fins industriais. Só na Amazônia, em 2023, a cada segundo, 21 árvores foram derrubadas. Agredida, a mãe terra chora, chora, chove sem parar. E com fúria, arromba tudo: casas, afetos, pontes, histórias, muros, certezas... e arrasta gente, bicho, concreto, construção, bens (i)materiais... Frutos da ganância.
Preservar a vida humana passa, obrigatoriamente, pelas florestas vivas! Amar e cultivar. É urgente ter árvores de estimação!
(Crônica publicada no livro “Apesar de nós”, Santa Sede – Crônicas de Botequim - 2024).