GOSTARIA DE TER INVENTADO COISAS


Miriane Willers

Gostaria de ter inventado coisas.
Não esses arranha-céus que nunca alcançam o céu, mas são perspectivas do inferno.
Não essas caixinhas de fósforos empilhadas na cidade, onde há gente que mora tão perto, mas tão perto que se desconhece. Nessas caixas de fósforos os homens vivem de tédio e depressão.
Cansam os olhos e o espírito essas moradias industriais, eretas e padronizadas.

Gostaria de ter inventado coisas.
Não a tubulação pluvial, sanitária, arterial da cidade onde a solidão escorre, adoece e assalta a alegria.

Gostaria de ter inventado uma lei que preservasse para sempre essas casas resilientes e charmosas no meio da cidade, encravadas entre prédios. Que se recusam a deixar de ser casa. Com jardim. E uma cerejeira. Um pé de laranja lima para meditar à mesa da cozinha, sentindo o sumo doce escorrendo pela garganta e tantos pensamentos na cabeça. E um pedaço de gramado para soltar os pés descalços e
descarregar energias. E um ou dois cachorros. Um gato, talvez.

Gostaria de inventar uma fórmula para eternizar essa paisagem bucólica no meio do caos – oásis no Atacama. Onde é possível ouvir piano da chuva no telhado. Os passos das folhas na calçada.

Respeito — embora não entenda —que há pessoas que gostam da segurança insegura dos condomínios verticais. Preferem o concreto, tijolo e cimento, mármore e gesso à terra viva, barro visceral. Para elas, também, gostaria de ter inventado coisas. Talvez um despertador de sentimentos. Ou um caleidoscópio para olharem a cidade e verem os valores históricos, ambientais, arquitetônicos, simbólicos e culturais da urbe.

Não entendo as pessoas não gostarem de árvores, flores, bichos, borboletas, bergamotas ao sol, canto dos pássaros no amanhecer. Não entendo as pessoas preferirem o cheiro de gasolina, o barulho imparável nas ruas, o susto em cada esquina. Com pedaços de mim monto um ser atônico, como escreveu Manoel de Barros. E não entendo as pessoas que não entendem que só as coisas rasteiras nos celestam, e as violetas nos imensam e os sabiás divinam.

Gostaria de ter inventado coisas para que as pessoas entendessem a poesia da casa verde e teimosa e tonta de beleza. Apesar dos prédios. Apesar da cidade. Apesar das especulações imobiliárias.

Gostaria inventar coisas...Mas, só invento palavras mundanas no papel em branco.

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Miriane Willers

E-mail: mirianew@yahoo.com.br

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