Miriane Willers
Na cave de envelhecimento, onde o vinho dorme e amadurece em barricas de carvalho, o tempo é aliado para que a bebida adquira aromas e sabores mais complexos, elegantes e que atendam o paladar dos mais simples aos mais exigentes. Temperatura, umidade, luminosidade em perfeita sintonia no subterrâneo – na alma da terra. O tempo e o carvalho, com toda paciência, vão liberando taninos e aromas como baunilha, frutas vermelhas, cravo e diversas outras especiarias. Envelhecimento lento e suave promovem vinhos de qualidade, de alto valor e muito apreciados.
O tempo demarca o futuro e desenha o passado, tal como criança descobrindo cores, linhas e mundo. É areia para construir castelos. É a espera na tua ausência.
O tempo – no nosso cotidiano virtualizado e líquido – instala pressa supersônica (ou somos nós, sempre apressados?). Meia hora parece consumir um ano de nossas vidas; em uma hora parecem transcorrer dois anos. Tudo instantâneo. Tanto que, de um dia para outro, nem reconhecemos nossos filhos. Ontem – bebê de colo. E, de repente, com vinte anos, universitária e celetista. É o tempo: anomalia natural. Ou somos nós que vamos somando tarefas e mais tarefas, que não sobra tempo para nada? Pressa para almoçar, pressa para sair, pressa para crescer, pressa, pressa… Saramago alerta: “Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo”. Equilíbrio talvez seja a tônica a ser perseguida.
O tempo é vilão e réu das nossas certezas. Escultor das nossas linhas de expressão. “Compositor de destinos. Tambor de todos os ritmos. És um dos deuses mais lindos”, como na canção de Caetano. É político disfarçado, sempre prometendo amanhãs. Por causa dessa promessa descarada, vamos adiando decisões, viagens, abraços, encontros, conversa e café a dois, a escrita de um poema.
O tempo é cura para desentendimentos, mágoas; alívio para dores antigas e crônicas; bálsamo para feridas internas, escondidas e mascaradas. Tempo e silêncio, como vinho dormindo. “O tempo é o conselho mais sábio de todos”, já defendia Péricles, famoso estadista ateniense. Sabedoria é ouvir esses conselhos.
O tempo faz a irritação sumir e ameniza palavras rudes, que se transformam em doçura nos olhos. Se a palavra, porventura, for esquecida, não é preciso dizer – só olhar.
O passar do tempo não pode enferrujar nossas atitudes, ideias, emoções. A ferrugem no sangue e na mente envenena.
Na cave de envelhecimento da nossa vida – sejamos vinho e não vinagre.
( Crônica publicada na SLER, edição de 15/10/2025: https://sler.com.br/cave-de-envelhecimento/)