Miriane Willers
a vida pode ser leve
mesmo quando o mundo pesa
chuva a sambar no asfalto quente
lantana florida de borboletas
cheiro de dezembro no ligustro
fechar os cadernos tabletizados
no suspiro do ano letivo
a lentidão das horas domingueiras desocupadas
a vida pode ser leve...
espreguiçar o corpo —
movimento felino
doce de maçã da mãe
arroz com alho e presença
anis estrelado no chá da noite
delicada coleção de ausências da aline bei
ponto final no que não tem conserto
a vida pode ser leve
observar pássaros livres... eles passarão, eu passarinho
respirar fundo
diante da pedra no meio do caminho—
traçar o contorno
e permitir-se a lágrima, a fragilidade, o colo — não
é recomendável ser pedra o tempo todo
a vida pode ser leve...
palavra que escorre na poesia —geleia de amora
atravessar o final de tarde com os cães
pudim de leite num dia qualquer
vento nas franjas do coqueiro
manjericão nas mãos
a vida pode ser leve
nas luzes coloridas, o piscar natalino
a expectativa para o encontro dos ausentes
quem é o amigo secreto?
o abraço inesperado
o rio passando na ponta dos pés
a cidade dorme
a cidade pesa
poucos sonhos leves.