Miriane Willers
Ele era um bom amigo. Dispensava outros adjetivos ou qualificações. Não há como medir nossa proximidade e reconhecimento. O afeto percorria o olhar como relâmpago na noite. Eu, confesso que fui um pouco omissa e ausente, como tantas de nós fêmeas, sobrecarregadas de mundos.
Mas, nos finais de semana estávamos juntos. Ele gostava de caminhar, sentar na praça, percorrer a cidade com mansidão. Ele me fazia companhia. E eu a ele. Não havia necessidade de palavras. Nossa ligação era feita de silêncios confortáveis, tão característico de amizades duradouras. Afinal, já eram quase nove anos. Bastava o toque dele no meu joelho e ali se demorava para sentir-me acarinhada. E retribuía com afagos também, que ele apreciava.
Ele era um bom amigo. Apesar de eu nem sempre estar disposta a sair e fazer nossos passeios e redescobertas. Ele insistia. O convite era quase um apelo, daqueles que sabem de imprevistos e espantos. Até que eu cedia e lá íamos nós, no nosso ritual de estar junto.
Ele era um bom amigo. Nunca estamos preparados para despedidas e perdas. Nunca estamos preparados para a morte, embora como dizem, é única certeza da vida. Naquele final de semana de março, ainda estivemos juntos e não lembro o porquê de não ter saído com ele, apesar do reiterado convite. Na noite de quarta-feira seguinte recebi a notícia de que não estava bem. Na manhã de quinta-feira fui com ele, às pressas, para consultas e exames. O diagnóstico: infecção grave na próstata. Internação e cirurgia. Nos apegamos à Ciência, aos antibióticos, às orações. A infecção espalhou-se. Era tarde.
Ele era um bom amigo. E permitiu-me estar com ele, quando o inevitável chegou feito tornado. Pude dizer do meu amor e como era bom amigo. Pedi perdão pelas minhas ausências, incapaz que fui de ver com o coração. Perdão pelos passeios não feitos, pelos dias não vividos, pelo racionamento de abraços. A morte joga-nos à insignificância. Nos espanta com esse buraco que abre na alma, onde esconde aqueles que nos são tão queridos, como carta do primeiro amor. A palavra morte é fruto podre à espera da terra. É fim de linha. Ou promessa e semente? Essa travessia é sempre um assombro. E como bons amigos, estivemos juntos.
Ele era um bom amigo. E mais: foi um bom cachorro.
(Crônica escrita durante o Circuito Virtual 2026 da Santa Sede)