Miriane Willers
Duas senhoras elegantes tomam chá no final do dia. Olham-se nos olhos, desafiam-se em silêncio. No ar, percebe-se o conflito dos diferentes.
Zoé, balzaquiana, maquiada com cuidado, veste um conjunto verde musgo e uma echarpe de seda, com estampa delicada. Ela tem muitos sonhos. Toca violoncelo e Chopin ao piano. Se alegra com os campos floridos de trigo e girassol. Com uma corda e uma árvore criou um balanço, onde risadas infantis ecoam como cristais finos e delicados. Curte o voo dos pássaros, o canto dos sabiás na amoreira, a saga dos peixes rio acima. Se enternece com a flor que nasce entre as pedras e reboco. Sente o cheiro de pão recém-saído do forno como benção dos deuses. Costuma perdoar fraquezas e deslizes, vive como se não houvesse amanhã. Zoé tem abraço caloroso e gentil. Defende experiências significativas e que o verbo sentir é mais importante que todos os adjetivos no dicionário.
Azraelina, é o oposto. Prefere deixar desejos escondidos nas gavetas. Fica horas observando a palha seca nos descampados, a terra esturricada do sertão. Prefere vestir-se de preto, o que não a torna deselegante. Mas, maquiagem nem pensar! Não combina com seu rosto pálido e olhos grandes e escuros – noite de tempestade. A corda numa árvore é apenas uma possibilidade para alguém desesperado, pensava Azraelina. Não gostava do som da passarada, mas dos drones, torpedos mortais, bombas de artilharia pesada. Estava sempre por perto nas chuvas persistentes que espraiavam os rios pela cidade, no cão abandonado na estrada, no homem descalço debaixo da marquise. Estava em Gaza, na Ucrânia, no Oriente Médio e em todos os lugares de conflito. Suas mãos são gélidas e nada acolhedoras. É extremamente solitária e sombria.
__Minha irmã, por que você me segue? – questiona Zoé, enquanto adoça o chá. Sua visita não estava sendo aguardada na casa de Amélia esta manhã. Os filhos estavam ausentes, havia o bolo de aniversário da neta para preparar.
— Que me importa? Minha chegada é sem aviso prévio. Dispenso convite e não peço permissão. O tempo de Amélia havia esgotado. Andava cultivando ressentimentos ao invés de roseiras, remoendo passados, medos e angústias.
— Você é tão impertinente e insensível!
— Minha querida, engano seu! Eu sou sua única certeza. Você não existe sem mim. Sou repouso para o cansaço e libertação para os fardos. O fim necessário. O problema é que ninguém pensa em mim, mas eu existo. Quando chegar a hora, lá estarei fiel e pontual! Não importa o tempo...Que culpa tenho eu, se as pessoas esquecem de você?
Silêncio.
Servem mais chá, enquanto observam o trânsito, a pressa, o dia se fundindo na noite...por um breve instante, as duas são uma única luz, próximas e convergentes, embora separadas pela direção do tempo.
— Com qual delas você tem compartilhado o chá de camomila à noite?