Miriane Willers
Escrever sobre a alegria não é tarefa simples em meio a corrida mais maluca pela sobrevivência do aquele desenho animado da meninice. As horas engolem dias, que engolem semanas, que engolem meses e o tempo é diamante perdido, que tantos procuram. Inclusive eu.
Para Epicuro a alegria está na simplicidade, na ausência de dor no corpo e na paz de espírito. Pensando nisso, inventariei momentos que repercutem neste estado de ânimo. Aqueles que nos passam despercebidos.
Conceder às mãos e aos olhos a graça da livraria. Lombadas, autores, títulos, universos, palavras de doce-de-leite, versos de canela e alecrim. Sentir o cheiro de livro, a textura do papel.
Solidão (do tipo leve e despretensiosa) de uma noite de quarta-feira no coração arteiro de Porto Alegre. Digo na Casa de Cultura Mário Quintana. Barzinho com mesas na calçada. Velas derramando luz à taça de vinho branco. Tão bom ficar ali, bebendo um vinho no meu bar. E pensar como Quintana: “E tu, deixa-me em paz, Alma Penada!”
Ritual do café passado. Respirar a calma da manhã, animada pelo barulho de alguns pássaros à beira do rio.
Brigadeiro de colher em dia de chuva. Ou pipoca melada de chocolate branco e leite ninho. Já experimentaram?
Separar a melhor fatia do tempo, por menor que seja, para ouvir música e ler poesia. Poesia é ato político – aprendi essa semana.
Chegar em casa na noite de sexta-feira e sentir o cheiro do jasmim branco. Anúncio de que a primavera não tarda.
Segurar a mão da jovem que conta a superação do medo, da violência na casa. E agora luta para ajudar outras mulheres, que não sabem de si próprias. E descobrir pontes, portas, caminhos e paisagens além do caos. Depois da dor, o contentamento da superação.
Permanecer imperfeita e humana – resistência ao algoritmo.
Abraçar árvores e bichos e, talvez, pessoas. As bem próximas e queridas. Contrariando minha filha que afirma que sou resistente a contato físico.
Estar viva. Ser fonte e alimento. Promessa e experiência. Possuir uma pequena caixinha para guardar sabedorias, fotos preto-e-branco, recortes de vida.
A alegria tem a simplicidade, a gentileza e a energia canina, que me observa enquanto escrevo à espera do sábado de sol.
É o desenho animado da vida.