QUEM CONSTRÓI NINHO NA CIDADE


Miriane Willers

Naquela manhã de reunião de trabalho, entre mapas, estudos de território, leis, opiniões diversas, minha concentração é desviada por uma pequena pomba, que pousa no peitoril da janela. Observa-me espantada, segurando um pequeno raminho no bico, desses que os pássaros usam para construir ninhos.
Segundos depois, levanta voo, e eu volto a atenção à problemática da cidade, com espaços a serem regularizados. Pessoas vulneráveis e deslocadas de dignidade são, por vezes, tão invisíveis aos gabinetes quanto a pequena pomba é aos meus colegas de luta, de espantos e determinação.
Durante a manhã, meus olhos são interrompidos pelos afazeres cotidianos da ave: escolher ramos, palhas e outros materiais, pousar no parapeito da janela, encarar-me rapidamente e voar até o local escolhido. Que telhado, beiral no concreto ou ar-condicionado estaria ocupando, sem chamar a atenção, assim como tanta gente à beira dos rios, encostas ou marquises? As áreas verdes e praças apequenaram-se na cidade. As árvores urbanas estão rareando nos passeios públicos e quintais. E os pássaros ficam desabrigados. Quando a urbe vai entender que as árvores são seu maior patrimônio?
Destituídos de abrigo, os pássaros integram a paisagem citadina como origamis de papel nos prédios e casas. Destituídos de verde e sombra, os homens adoecem — de ansiedade, de calor, de cansaço — em virtude de vulnerabilidades sociais, culturais e ambientais. Quando não há preocupação e cuidado com pessoas, bichos e plantas, os cenários urbanos são áridos, desiguais e subdesenvolvidos.
Assim como a pequena pomba, sigo trabalhando e sonhando com uma cidade justa e democrática, que garanta abrigo e dignidade para todos. Afinal, "se só fizéssemos o que faz parte das nossas atribuições, a vida seria muito triste", como escreve Valérie Perrin. Seria muito sem graça aquela manhã, sem a interrupção de penas, voejos e olhar provocador.

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Miriane Willers

E-mail: mirianew@yahoo.com.br

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