DE REPENTE, PRIMAVERA


Miriane Willers


Para que a gente escreve,
se não é para juntar nossos pedacinhos?
(Eduardo Galeano)

Quando o amor acontece, os riscos são iminentes, praticamente inevitáveis. Não se sabe, se recíproco; calculista ou desinteresseiro; apaixonado ou abusivo; carinhoso ou violento. É mergulho no abismo. Sem paraquedas.
O sentimento, se verdadeiro, quando nasce entre abrolhos, pedras, frestas do cotidiano, vem como se nada quer. Flor de bem-quer. É paraíso. Logo, se adivinha, se instala, ocupa espaços, lacunas, vazios, mesmo na negação. É fogaréu no rosto, nos olhos, nas atitudes. E incendeia certezas. Queima teorias, princípios, comportamentos. Contigo, minha premonição não falhou. Olhei nos teus olhos: vi incêndio, secura na boca, mar. A pele abrasou. Verão extremo, extemporâneo, quem sabe (e)terno.
Quando o amor se manifesta, se proibido, é perigo constante. Corda bamba lá no alto, onde o olhar quase mão alcança. Andar na borda, no topo do Burj Khalifa. Equilíbrio, imprudência, loucura. Escutar a voz querida, singular e potente é deslizar morro abaixo, no fio da navalha, frio na barriga. Mas, sem medo, sem futuro, sem pactos, sem documentos. Só vagas declarações. Um te amo assustado, dito, escrito, como quem foge. Ou de quem espera.
Quando o amor acaba, faz-se silêncio. Perigoso. Na ampulheta, enquanto a areia escorre, faz-se distância, sem que se perceba. Distanciamento de placas tectônicas, de confidências, de corpos. Terremoto. Vibração descompassada, acusações mútuas de falhas. Mudanças na rotação da terra, da ternura, do termômetro da paixão. E tudo que se busca é abrigo, proteção, explicações inexplicáveis. Tempo de promessas desfeitas, folhas de outono sopradas com o vento, cada vez mais forte, redemoinho.
Quando o amor vai embora é chuva. Chuvarada que não para. Não tem guarda-chuva ou ombro amigo que dê jeito. Vira tornado, tortura, torpor. Palavras se calam. Saudade grita. Janelas se fecham. Portas batem. Ficamos à deriva, desabrigados de afeto e autoestima. Céu cinza. Neve. Derretimento das geleiras. O caos. Quando partiste, deixaste inverno permanente nas minhas possibilidades de amar, de me dar, de me reconstruir. E a dúvida imortal, imoral: o que (des)aconteceu com a gente?
Ainda bem que nada é para sempre. Nem os perigos extremos. Nem as paixões. Nem a saudade. Depois da hibernação, bicho ferido e com as feridas cicatrizadas, de repente, amanheço. É primavera!

(Crônica publicada no livro “Apesar de nós”, Santa Sede – Crônicas de Botequim - 2024).

voltar

Miriane Willers

E-mail: mirianew@yahoo.com.br

Clique aqui para seguir este escritor


Site desenvolvido pela Editora Metamorfose