NOS VÃOS DA ESCRITA


Miriane Willers

Domingo de manhã, ainda com a xícara de café na mão, sento para corrigir trabalhos acadêmicos. Nunca pensei que diria isso: é gratificante me deparar com um texto com as imperfeições de quem está aprendendo, com confusões de vírgulas e pontos ausentes, com pensamentos acelerados que engoliram artigos ou conectivos. A escrita humana – a exceção. A regra tem sido a escrita artificial, mecanizada, impessoal, algorítimica.
Tomo mais um gole de café. Impossível não pensar na infância, pés descalços, escola rural. A caligrafia desafiadora nos constituía como pessoa. Lápis, borracha, canetas coloridas e folhas em branco nos faziam sonhar. As palavras eram garimpadas no dicionário, que nem todos tinham em casa. O termo escrever, no dicionário, tem múltiplas asas. É representar, por sinais gráficos, pensamentos e ideias. É o movimento de riscar sobre uma superfície palavras, frases, letras, caracteres. É inscrever, gravar, criar – ações que nos levam, de certa maneira, à permanência.
Es-cre-ver. Verbo translúcido, complexo, promissor. Guarda em si o ato de crer. Quem escreve acredita em transformações, na linguagem, no diálogo, na paz. Permite também ver. Olhar com os olhos do outro. Ver além do visível, além da superfície. Ver para crer e para escrever.
No texto científico sob correção vou colocando vírgulas, alguns pontos esparsos. Penso em joaninhas dessas coloridas, quase invisíveis aos nossos olhos apressados, mas que têm relevância vital para plantações e colheitas, conforme aprendi na botânica. Risco vocábulos, descarto expressões, como pétalas de rosas desfeitas, para que o dizer faça sentido. Escrever, ler, revisar, pensar é algo orgânico e indelegável.
Escrever é escavar a essência do que somos como ninfas de cigarras sob a terra. É escolher as melhores palavras para tecer laços imaginários com os leitores. A sutil beleza e espiritualidade das letras, polinizando as mentes humanas como imperceptíveis moscas de flores, com seus pijamas listrados de amarelo-preto, Escrever não é reter a borboleta, mas o voo, o movimento. Às vezes, escrever é pisar num rio, na pedra, no poço que não dá pé; sentir o assombro de quem se afoga e aprende a respirar na profundidade.
A escrita é quase como construir pandorgas coloridas. Escolher varetas finas de bambu, papel seda e criar a diversão e o imaginário, para soltar no espaço aberto à potência do vento. E, desajeitada, ganhar o céu. É com as mãos e o barro, modelar vasos, corpos, rostos, arte.
Através dela, a escrita, podemos ser outra pessoa. Nos mimetizarmos em personagens variados, estabelecermos conexões com o outro. Podemos ser gente, inseto, coisa, arco-íris. O infinito é o limite. É ato humano que procria o extraordinário, a partir do corriqueiro, tal como o poema do Quintana: “ Uma formiguinha atravessa, em diagonal, a página ainda em branco. Mas, ele aquela noite não escreveu nada. Para quê? Se por ali já havia passado o frêmito e o mistério da vida”.
Não me conformo com jovens ( e adultos) que estão terceirizando a escrita para a inteligência artificial. Que entende a IA do idioma das árvores, das canções do vento nas folhas da tarde, do apalpar do perfume do sol, da poesia de Manoel de Barros? Quando o ser humano delega para a máquina o pensamento, a criatividade, os sentimentos e o mover do lápis e da palavra está renunciando a si próprio. A extinção da escrita humana representa a extinção da humanidade.
Nesse domingo ensolarado de setembro quero crer que haverá esperança, como no texto de uma aluna que seguro nas mãos, que apesar das imperfeições dá aquele quentinho no coração docente. Bem-aventurada a escrita própria, pessoal ( apesar de científica), vicejante em sua reflexão, esforço e crueza iluminada.

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Miriane Willers

E-mail: mirianew@yahoo.com.br

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