CONVERSANDO COM ELAS


Miriane Willers

Atena, Aurora, Iemanjá, Iansã, Caipora e Nossas Tantas e Santas Senhoras:
Façam de nós instrumentos de alegria, determinação, consciência, luta, diálogo, resiliência, resistência, e que possamos santificar todas as mulheres que vieram antes e nos legaram direitos. Sufragistas, pioneiras, constituintes de batom, trabalhadoras da roça e da cidade. Que possamos honrá-las agora e sempre. E que nossas filhas aprendam a bendizê-las também.
Onde houver o ruído dos cegos pelo dogma e a vertigem dos passos impensados, que sejamos a palavra serena e a clareza nos espaços públicos, privados e virtuais. Sejamos o prumo e antídoto contra o desatino coletivo
Onde houver temor pelo amanhã, que sejamos coragem e aprendamos a escutar a diferença, a diversidade, a divergência.
Onde houver submissão e desrespeito, que sejamos fortes e unidas, apesar de tantas desgarradas de si e aliadas ao machismo. Essas não sabem o que fazem (ou será que sabem?).
Onde houver desconfiança, que sejamos confiança e possamos confiar umas nas outras, na liderança feminina, na nossa capacidade de construir, transformar; fazer das pedras não cercas, mas fornos para assar pães.
Onde houver desesperança e medo, que possamos compreender que, se a esperança for rasgada pela metade e sucessivamente pela metade, até que seja apenas partícula, ainda assim será esperança. Que um frêmito dela, como o voo do pássaro, alimente nossa vontade e nossas escolhas. Todo pássaro é esperança. É preciso esperançar!
Ó Deusas:
Deem-nos a graça e o desafio de ser mulher. Nem totalmente virtuosas, nem sempre pecadoras. Às vezes, sem paciência. Às vezes, reclamonas. Sempre coração e empenhadas em prol da justiça, da igualdade, da liberdade de ação, do respeito, do reconhecimento. Contra o autoritarismo, mesmo o disfarçado; contra a opressão e a impunidade — que tantas vezes se veste de virtude.
Perdoem a indiferença à miséria humana, às migalhas na mesa, às infiltrações nos telhados. Os que não se importam com o outro, com aqueles que sobrevivem na periferia da existência. E, perdoem também os que vivem numa bolha de egoísmo, ambição e vaidades. Mas perdão tem limites e não pode ser sinônimo de esquecimento.
Protejam-nos da violência que marca nosso corpo, nosso espírito, nossa potência de vida. Violência de toda espécie, inclusive daquela travestida na palavra, na piada, na omissão.
Que sejamos sempre indignadas pela dignidade humana e a santa indignação nos proteja do hábito da barbárie. Nenhum corpo é rascunho, nenhum nome é estatística, nenhuma vida é coisa.
Que não reneguemos nossa origem simples, humilde e de gente batalhadora.
Rezamos, nessa oração, a voz e o silêncio; camélias em flor, espinhos, o nada, o relento, folhas mortas e barro vermelho. E pedimos:
Livrem-nos da superficialidade, da negação e da banalidade do mal. Amém.

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Miriane Willers

E-mail: mirianew@yahoo.com.br

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